Beleza · História

O que eu aprendi com Theodore Finch

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Eu não costumo fazer resenhas de livros e, pensando nisso, não sei dizer o por quê já que leio bastante e normalmente não tenho com quem falar sobre minhas leituras… Possivelmente a culpa seja da falta de tempo, mas vou me concentrar em fazer isto mais vezes.

De qualquer forma, venho hoje falar sobre este livro, ou mais especificamente, sobre o personagem tão cativante que nos leva a refletir sobre o mundo e o ser humano. Quando você lê a sinopse de Por Lugares Incríveis acredita que seja uma história fofa sobre um garoto e uma garota que se encontram um no outro e se ajudam a seguir em frente por esse mundão enorme e cruel, mas não é isso. Ou pelo menos, não só isso. Se, como eu, você for um adepto em ler a última frase de um livro antes de lê-lo de fato (ou talvez só a doida aqui faça isso), você pode pensar que este livro é lindo e tem um final feliz.

Mas não tem.

Já vou avisando, é uma mentira muito bem contada para os leitores de últimas frases de livros.

Mas vamos lá, Theodore Finch é um adolescente que está no último ano do ensino médio e encontra-se já na primeira página, em cima da torre do sino do colégio experimentando a sensação de como seria se jogar . Até aí tudo ok. Não tudo bem, mas tudo ok.

“Senhora e senhores – grito –, gostaria de apresentar-lhes a minha morte!”

É o que ele diz enquanto está lá pendurado como um maluco. E no começo é apenas isto que ele parece: um maluco.

Resumindo, nesta mesma torre ele encontra Violet Markey. Uma garota da mesma idade que perdeu a irmã em um acidente de carro do qual ela saiu ilesa e sente-se desolada por isto. Culpada. Quando Finch a vê, sabe que ela não é o tipo de pessoa que deveria desperdiçar a vida assim. Afinal, é popular, bonita e, aparentemente, tem “tudo”. Então, ele a ajuda a não cair. Os alunos do colégio pensam que foi ela que o salvou, quando na verdade foi o contrário. A escola inteira passa a falar da tentativa de suicídio de Theodore, mas ele não se importa nenhum pouco, há muito tempo é conhecido como “Theodore, Aberração” pelos colegas. Violet tem medo de que ele possa contar a verdade, mostrar que ela não é tão feliz quanto aparenta, mas ele não diz nada. Finch simplesmente não se importa.

No começo você dá muita risada, Theodore Finch é divertido e irreverente. Se mete em confusão, vai e volta quando quer. Ele consegue prender sua atenção, contando das desventuras humanas e falando da morte como se fosse uma piada. Quando seu professor de geografia passa um projeto para o final do semestre em que eles devem caminhar por Indiana e conhecer melhor o estado em que vivem antes de irem para faculdade, o garoto decide que Violet será sua dupla e ela não consegue escapar. Daí surge uma improvável amizade.

Acontece que Violet tem seus traumas. Perdeu a irmã com a qual partilhava um site super descolado e agora, sua melhor e talvez única habilidade se perdeu também: escrever. Além disso, ela não consegue nem por um minuto se obrigar a ficar dentro de um carro, pois isso a faz lembrar do acidente. Sua vida está uma bagunça e Finch por si só, é uma bagunça ainda maior, mas ela o aceita como parceiro. Querendo ou não, o maluco salvou a vida dela.

De inicio você chega a pensar que a única com problemas na história é Violet, mas na verdade você devia prestar mais atenção em Finch.

Theodore Finch, na verdade, tem transtorno bipolar e depressão. O que, sério, até eu demorei a perceber. Ninguém sabe, ninguém entende. Nem mesmo sua família que é tão problemática quanto ele. Apenas sua irmã mais velha, Kate, sabe que vez ou outra ele “apaga” por semanas, mas é só. Só? Depois de surtos fortes, Theodore simplesmente apaga, mas ninguém liga. Demorei pra entender o que o personagem queria dizer com “apagar”. Após muita análise percebi o que isso queria dizer, é que depois de grandes oscilações de humor e emoções  o garoto dormia por semanas. E quando estava “desperto”, só conseguia pensar em como seria mais interessante tirar sua própria vida do que vivê-la.

Mas voltando ao projeto de geografia, Violet e Finch começam as atividades e ele mostra a ela lugares incríveis que a mesma não imaginava que poderiam existir bem ali em seu próprio estado e mais, o famoso “Theodore Aberração” se mostra um cara incrível com ideias brilhantes e um olhar diferente e melhor acerca do mundo em que vivem. Ele consegue ver sempre o melhor no pior e ela passa a admirá-lo por isto. Ele é estranho, mas de um jeito bom. Atencioso, poético e adorável. Ele a faz querer ser melhor, querer voltar a viver, de fato, pois sua vida parou quando Eleonor ( a irmã) se foi.

Os dois se envolvem emocionalmente de forma gradual, um romance bonito que surge rápido e devagar ao mesmo tempo. Violet passa a dirigir e volta a escrever, tudo graças a ele. Finch, porém, está lutando contra si mesmo, todos os dias, tentando continuar desperto, mas piora mais a cada dia e passa a ser difícil se mostrar o garoto inteligente e divertido o tempo todo. Theodore tenta de todas as formas não perder o controle e apagar. Mas agora, ficar desperto mesmo com a companhia de Violet, passa a ser um desafio que ele não está disposto a suportar e vencer. A moça não sabe que ele tem problemas sérios e afinal descobre isso tarde demais..

“O que percebo agora é que o que importa não é o que a gente leva, mas o que a gente deixa.”

Esse livro mexeu bastante comigo. De 335 páginas, coloquei post-it em trinta. O que me chama atenção nesta história (além do fato de ser muito bem escrita) é que existem muitos Finchs e Violets por aí. Pessoas que sofrem caladas e que achamos viverem bem ou serem apenas esquisitonas sem salvação. Não damos valor ao sofrimento alheio. Não nos importamos. Não sabemos de nada, embora pensemos saber.

Theodore Finch me ensinou coisas que eu jamais veria por mim mesma. Ensinou coisas tão belas a todos que estavam a sua volta, mas esqueceu de ensinar algo bom a si mesmo.

Finch tinha problemas que seriam detectados como neurológicos se, e tão somente se, alguém se importasse e notasse que ele não estava bem. E não é isso que acontece hoje? O amor de muitos se esfriou. O amor dos da própria casa. Mas não só isto, Theodore, como muitos que, infelizmente não são apenas personagens de uma história, mas pessoas reais, não se contentam com a vida. Tentam a todo custo ver como é bela e tirar o que é bom, mas há um buraco dentro delas que não pode ser preenchido. Nem com a garota mais bonita do colégio. E não podem, porque elas estão tentando preencher com nada que encaixe de fato.

Até as crianças sabem que naqueles brinquedos de encaixar, a peça quadrada se encaixa no buraco quadrado. Entendem o que quero dizer?

Há um buraco em cada ser humano, que suga suas forças e não pode ser explicado por nenhum médico. Este buraco espera para ser preenchido por uma força maior. Por algo quente e aconchegante que dará, finalmente, sentido a sua vida. Esta peça que falta é Deus. Não religião, não igreja, não crentice. Não. A peça é Deus. Descubra como encaixá-lo. E se não conseguir, encaixe-se você nEle.

Theodore Finch deixou o buraco da alma o engolir por não procurar o encaixe certo para tal.

A vida é como uma estátua. Exuberante, imponente, dura, fria, difícil de ser explicada, mas bela. Um estátua, como a própria vida, foi feita para ser contemplada independente do resto.

“Às vezes há beleza nas palavras difíceis.”

Sim, Theodore Finch. Há beleza em tudo.

Ps. Recomendo o livro para os que tiverem interesse, pois as reflexões são ótimas e a história pode ser descrita com duas palavras: tragicamente linda.

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9 thoughts on “O que eu aprendi com Theodore Finch

  1. Só queria dizer que também tenho a mesma mania de ler o fim do livro!!!
    Por Lugares Incríveis é um dos meus livros prediletos e Finch me cativou ♡♡♡

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  3. Ah, então ele dormia! Fiquei com a incógnita até o final do livro sobre o que o Theodore queria dizer com “apagar”. Eu gostaria que o livro tivesse focado mais nos sintomas. Quebrou meu coração essa história, mas ao mesmo tempo ela é bonita, então é dificil dizer um veredito. Acho que é uma história necessária. Também achei que a autora escreve maravilhosamente.
    Obrigada pela resenha
    Beijoos

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